'' Eu tinha 10 anos quando fui abraçada pela tragédia, que me acompanhou com muito prazer, não correspondido até hoje. Meu Pai arranhava a porta que estava trancada, eu do lado de fora em pânico o acompanhei ate o hospital. Me recusei a deixar o quarto onde ele ficou por três dias. Em casa foram noites em claro ouvindo o repertório dos bailinhos de sábado à noite dos anos 70 e 80. Seu lado esquerdo paralisado pelas consequências do AVC, eu fazia questão de ajudar em tudo, em cobri-lo, calçar as meias, pentear o cabelo. Eu jurava que tudo ficaria bem só de olhar para o sorriso em seus olhos sempre que cruzava com o meu.
Uma semana depois ouvi minha mãe gritar, corri pelos corredores da casa imensa, um labirinto, minha mãe de joelhos no chão segurando a cabeça de meu pai, que me olhava como quem sabia que eu apareceria, nos encaramos por vários segundos, uma eternidade, semblante transparente, olhos negros que me fitavam com firmeza sem piscar, ele já estava morto.
Meu peito pulsa a todo segundo
O desejo de voltar aquela sala azul
aqueles braços que me acolhiam
aqueles olhos que me consolavam
aquela inocência que me tomava por si só.
Viver o que da infância, hoje me torna feliz
aqueles pés descalços sempre vigiados
aquela proteção tão rígida
aquele amor incondicional
Queria aquela paz que reinava em meu peito
por saber que jamais estaria só
por ter um nome sempre firme nos lábios
um grito de socorro
Que hoje em lágrimas viram desdém
PAI.
Para Ney Antônio Miranda (em memória, em espirito e em minha vida) ''
Amanda Droich.
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