
'' Com a morte de meu Pai vieram outras, a de minha mãe em depressão profunda, e da família perfeita que eu acreditava ter, e da minha infância. Eu tentava fugir de todas as mortes, para não morrer também, eu era a única vida naquela casa. Mexendo nas coisas de meu pai encontrei algo valioso, uma lista que fizemos juntos três anos atrás, de tudo que eu queria fazer. Cai em si naquele exato momento, que eu só tinha 11 anos e muita coisa pra fazer, por mim e por ele. Continuei com as aulas de piano por meu Pai, que com carinho me incentivou a engrenhar na música aos 6 anos. Fiz aula de dança do ventre, break, salsa, tango, balé, aula de pintura, desenho, canto, teatro, entrei nos times de voley, handboll, futebol, xadrez e crochê. Me apresentei em vários teatros, fui aplaudida de pé por 395 pessoas no Teatro Municipal de São Paulo em 2006, cantando e tocando no piano a música 'Lonely - After Forever'. Comecei a não me importar com nada, fazia o que queria sem me importar com as consequências. Comecei a andar de skate, a sair sem rumo pelas ruas em vez de ir pra escola. Até que achamos um lugar fixo. O 'Lago Ness', onde o sol refletia na água cristalina rodeada por pedras rochosas e grama verde. Uma réplica do paraíso. Uns levavam violão, outros esqueiro, pegávamos galhos e acendíamos fogueira, nadávamos, brincávamos, cantávamos Legião Urbana, Engenheiros do Hawaí e Cazuza. Certo dia sentada na beira de uma rocha um garoto sentou ao meu lado e me beijou, ficamos por uma semana, adorava o sorriso de covinhas, e a maneira que ele beijava meu pescoço.
Num dia muito quente quando cheguei no Ness, o vi subir na rocha mais alta, a que ninguém jamais pulou. Vi cada parte de seu corpo entrando na água, e a poça de sangue manchando o lago. Corri até ele, e o trouxe até a margem. Voltei ao Ness 3 dias depois de seu enterro. Me sentei na ponta da mesma rocha em que ele pulou, e morreu, dela se via todo o bairro, e a linha do horizonte traçando as casas. Por impulso pulei. Ouvi gritos desesperados, até que o silêncio das águas se manifestou. Sai do lago tentando entender porque sobrevivi. Apenas me conformei.
Desvirtuando o silêncio do piano
Andei conforme o traço
E estou presa a este laço
Aplaudindo a morte que dança
Que desfila rasgando minha infância
Feixes de luz iluminaram sem pudor
Este corpo semi nu quase santo
Desfiando o ar dos pulmões
Sem misericórdia, sem pranto
Aos pés de quem nem o amou
Por um triz quase chorou
De ver que para ti o sonho não se realizaria
Mas sem saber o porque desse fim
Nem da vida que há em mim
Me conformo com esta que um dia ou outro perderia
Para Bruno Almeida.
Com meu eterno primeiro beijo. ''
Amanda Droich.
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