segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Cegueira



''Não deixei de ir ao Ness, mesmo não sendo a mesma coisa. Depois da morte de Bruno não entrei no lago, nem o faria tão cedo. Conheci Rick, garoto de inteligência pasmante, sem inocência alguma a desperdiçava em drogas lícitas e ilícitas. Olheiras marcantes, mas sem esconder o sorriso nos olhos castanhos esverdeado quando me viam. Ele se declarou várias vezes, me chamava de 'A Perfeita Imprevisível', eu o via como amigo apenas. Por mim se afastou do lícito e ilícito. Ele me ensinou a ouvir Charlie Brown Jr; e tudo que sei fazer com um skate; e me ensinou também, que por amor tudo vale a pena. Sentados na beira do lago, sem desviar o olhar de mim por um segundo, improvisando cifras no violão desafinado e cantando  'Longe de você - Charlie Brown Jr', me fez pela primeira vez sorrir com sinceridade, esquecer que naquele lago, um dia o sal se misturou com um sangue inocente. Ficamos abraçados vendo o pôr-do-sol refletir na água. No dia seguinte, como todas as sextas ele foi me buscar na escola, quando o vi do outro lado da rua, corri para seus braços e lasquei-lhe um beijo na boca, como se o mundo fosse acabar naquele exato momento, e se acabasse, nem me importaria. Caminhando com suas mãos firme nas minhas, e na hora de atravessar, o sinal ainda amarelo já o esperava. Tentei puxa-lo para trás, mas a moto ligeira o atingiu lançando-o com a cabeça numa lança duma lixeira quebrada num poste, atravessando seu olho esquerdo. Aquela cena não me causou repulsa em momento algum, apenas desespero. Com lágrimas nos olhos tirei sua cabeça da lança, e a apoiei em meu colo, abaixei suas pálpebras para tampar o vazio do olho esquerdo.
Mais uma vida que me deixara, mais uma oportunidade de ser feliz.


Aplauso derradeiro

Nada mais cabe em meu peito
Apenas o vazio 
que preenche
Despede.
Meu amor é caro 
é raro
É uma vida, ou uma morte
É a luz que se apaga
Que estava em teus olhos.
Arranquei de ti a vida
Em troca de um coração.
E quanto custei a me libertar
Quanto custei a me entregar
Para num beijo tudo se findar.

Para Henrique, meu eterno Perfeito Imprevisível.''


Amanda Droich.

domingo, 6 de novembro de 2011

Morte que vive



Na sala eu e Carol nos acabávamos em risos o por tudo e por nada. Me apeguei a seis garotos que sentavam ao meu redor com rapidez, não me via sem eles, os quais chamava de filhos. Um deles despertava em mim sentimentos inexplicáveis a anos. Olhos, da cor da linha do horizonte entre o céu e o mar. Era o tipo de garoto incerto e imprevisível, cada olhar um mistério, cada palavra uma canção. Nos tornamos amigos e para maior tortura, só amigos. O amei durante quatro anos, o ensino médio inteiro. Me apaixonava por outros olhares, me esquecia em outros braços, mas sempre que o via, deixava de existir um corpo, e me tornava apenas um suspiro, que assobiava de desejo. Nos aproximamos cada vez mais, como uma irmã o ouvia e, com ele desabafava. Admirava em silêncio cada detalhe, o perfume sempre presente, a sutileza, o sorriso torto, nuca lisa, mãos suaves que só sentia ao cumprimenta-lo. Aprendi a vê-lo como irmão, até que de todo aquele amor, hoje sobram apenas lembranças e saudades. O único corpo que não tive, o único corpo que sobreviveu ao meu amor.

Cada olhar uma vida e cada suspiro uma morte
Vivi de desejos morri de ilusão
O amei até que decifrei seu olhar
E quando tudo fez sentido
Me coloquei em seu lugar
Digo com gosto agridoce na boca
Que tua boca nunca provei
Teu corpo nunca toquei
Tua pele nunca beijei
Teu riso
de risos
sorria
fazendo-me sorrir
Passos rígidos sempre olhando pra trás
Para como amiga estender minha mão
até que você se sinta todo abraçado


Para T.H.S. Sampaio, A linha do horizonte entre o céu e o mar.

Amanda Droich.